Folha de São Paulo, 10 de outubro de 2004
Haverá vida depois do petróleo?
Talvez fosse melhor inverter os termos e chamar o artigo de: "Haverá petróleo para o gênero de vida criado pela sociedade industrial?". O único tipo de desenvolvimento econômico que conhecemos é intensivo em energia. À medida que se desenvolvam, os habitantes dos países em desenvolvimento terão de passar do atual consumo insignificante de energia -0,75 TEP (tonelada de equivalente de petróleo por pessoa/ano)- a algo entre 2 e 3 TEPs, o que não é exagerado, pois os desenvolvidos têm índice de 4,5 TEP pessoa/ano. Isso significa que, em 2050, quando a população dos mais pobres for de 9 bilhões de habitantes, o consumo mundial de energia terá passado de menos de 9 bilhões de TEP para a cifra colossal de 25 bilhões a 30 bilhões! Esse futuro, aliás, já começou, pois é, em grande parte, a pressão da China e, em grau menor, a da Índia que estão alterando o perfil da demanda energética.
É óbvio que apenas parte desse choque
gigantesco de demanda poderá ser atendida pelo petróleo. O resto
terá de vir de outras fontes, alternativas ou tradicionais. É
por isso que modalidades altamente poluidoras de energia, como o carvão,
têm pela frente brilhante futuro assegurado. Nessa equação,
o papel da oferta de petróleo é garantir a produção
de 120 milhões de barris para 2025, aumento de 50% do nível
corrente, apenas para satisfazer o crescimento da demanda específica
por óleo, que é de 1,9% ao ano. Ora, até isso, que representa
muito menos que a demanda por energia em geral, é hoje objeto de controvérsia.
Na discussão sobre a capacidade de a oferta
fazer face a esse desafio, há duas correntes principais. De um lado,
estão os que dão ênfase aos limites físicos de
produção do óleo, derivados da geologia e da tecnologia
disponível para extrair o petróleo a custos competitivos. Do
outro, ficam os que privilegiam fatores econômicos e geopolíticos.
O que complica a tarefa do leigo desejoso de ver claro na confusão
das posições contraditórias é ser a indústria
petrolífera uma das menos transparentes da economia. Nela, o recurso
à contra-informação é moeda corrente. A falsificação
de cifras de produção é habitual, do mesmo modo que a
do nível das reservas, a que não escapam até empresas
prestigiosas, como a Shell.
É em relação aos limites físicos
e geológicos da extração que se situa o debate sobre
o esgotamento das reservas e o atingimento do chamado "pico de Hubbert",
do nome do geólogo americano King Hubbert, o primeiro a calcular, 50
anos atrás, quando se atingiria, na produção, o ponto
mais alto a partir do qual o declínio e a conseqüente explosão
dos preços se tornariam irreversíveis. Veja bem, ninguém
nega que, algum dia, o petróleo vai acabar, já que é
recurso finito. O que se discute é quando. Os pessimistas, minoritários
na indústria, afirmam que o pico será atingido entre 2007 e
2010, depois de amanhã, portanto. Os otimistas apostam entre 2020 e
2030. A previsão mais otimista é a do Departamento de Energia
dos EUA, que indica que o pico seria alcançado entre 2030 e 2075.
Asseveram os céticos que, durante muito tempo,
as grandes companhias subestimaram as reservas em cerca de 30%, criando uma
reserva não-declarada que lhes permitiu, ano após ano, reavaliar
a capacidade, mascarando o fato de que, há 20 anos, os volumes descobertos
são inferiores aos consumidos. É verdade que a evolução
das reservas tem refletido, sobretudo, a reavaliação permanente
e sempre para mais de jazidas já conhecidas, mais que descobertas novas.
Os pessimistas calculam as reservas mundiais em 780 bilhões de barris,
ao passo que as empresas e fontes convencionais afirmam que elas estariam
em pouco mais de 1,1 trilhão, do qual 65,4% no Oriente Médio.
O que ninguém pode negar é que, desde 2000, quando se descobriu
o campo gigante de Kashagan, no Casaquistão -a maior descoberta em
30 anos-, não se encontrou nenhum campo comparável, e as reservas
globais descobertas caíram 40% em comparação com a expansão
registrada nos quatro anos anteriores.
Entre 2001 e 2003, apenas 6 das 15 principais firmas produtoras conseguiram
repor integralmente o óleo que bombearam do solo. Para os que duvidam
da explicação baseada nas limitações geológicas,
a razão da baixa taxa de reposição é de natureza
econômica. A visão de curto prazo, característica de um
tipo de economia dependente do chamado "valor para o acionista",
fez com que as companhias cortassem em 27% o orçamento de exploração,
no momento em que pagam dividendos cada vez mais altos, possibilitados pelos
bons preços. O custo, a longo prazo, é comprometer as reservas
num setor no qual a falta de investimento agora só se fará sentir
plenamente em dez anos.
Para essas grandes companhias, a melhor opção é ganhar acesso fácil à região que concentra dois terços das reservas já localizadas e de fácil exploração: o Oriente Médio. O problema é que, após anos de negociações, nem a Arábia Saudita nem o Kuait aceitaram a volta das "majors", para não falar do Irã, fechadíssimo como sempre, nem do Iraque, cuja porta vem sendo aberta do jeito que todos sabem. Não há alternativa inteiramente satisfatória, pois a Rússia, além da incerteza política, deve, segundo muitos consultores, atingir o pico em 2007-08, enquanto a África ocidental é também zona de instabilidade crônica. Outro fator complicador é que, mesmo se tudo der certo e os campos do golfo voltarem a acolher os ocidentais, o resultado líquido será o aumento da dependência do mundo em relação ao mais problemático dos pontos quentes de toda a geopolítica universal. Como se pode deduzir dessa análise, a maior parte da oferta terá de provir do Oriente Médio, cuja produção deverá dobrar, o que exige investimentos estimados em perto de US$ 30 bilhões por ano durante muito tempo. É concebível esperar clima de estabilidade política que viabilize tal nível de investimento na região do planeta com o mais intenso índice de conflito por metro quadrado de deserto?
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