Folha de São Paulo, 16 de maio de 2004
TEMPO DE SUPERLATIVOS
"Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos." A frase que abre "Uma História de Duas Cidades" é um dos começos inesquecíveis de romance. Ela se estende em diversas linhas de variações sobre o tema do "chiaroscuro": era a idade da sabedoria, a idade da tolice; a época da fé, a da incredulidade; a estação da luz, a das trevas; a primavera da esperança, o inverno do desespero; diante de nós, tínhamos tudo e nada; estávamos indo direto para o céu e na direção oposta -em resumo, conclui, era tão parecido com o presente que só o grau superlativo lhe servia.
Charles Dickens reservou essa abertura como digno início de sua grande novela sobre a Revolução Francesa. Embora estejamos longe de viver tempos heróicos como aqueles, os nossos fazem jus de alguma forma a uma razoável dose de superlativos e de contrastes. O momento geoestratégico não é certamente o pior em termos absolutos, mas a calamidade em que se converteu o Oriente Médio, do Iraque a Israel, torna o pior uma hipótese plausível. Como sempre ocorre em tempos de gastança militar, déficits e juros perto de zero, a economia brota com viço e opulência. A estimativa da OCDE projeta expansão de 4,7% para os EUA, o melhor ano da economia mundial desde 2000. Paradoxalmente, os jornais europeus estamparam, no dia 12, essa estimativa na mesma página em que a Goldman Sachs constatava que o índice de confiança dos executivos em todo o mundo baixara de 93,9, três meses atrás, a 77,6 agora, o pior em quase um ano.
A mesma oposição dickensiana de boas
e más notícias marcou a semana inteira. A manchete do dia 11
era o desabamento dos mercados, com o índice Dow Jones mergulhando
abaixo de 10 mil pontos e quedas mais acentuadas na Ásia e na Europa.
O detonador do pânico foi a criação de mais de 280 mil
empregos em um mês nos EUA. Qualquer pessoa normal acharia essa uma
boa notícia, pensando nos 3 milhões de desempregados que buscam
colocação. Os mercados, no entanto, são perversos. Não
vêem milhares de rostos que se iluminam com um emprego, mas a probabilidade
de que o Federal Reserve tenha de antecipar a hora de aumentar os juros. Tampouco
se preocupam com o possível impacto negativo que o aumento teria para
o crescimento econômico.
O juro atual de 1% é estimulante potente da
expansão. Levando em conta a inflação americana, a taxa
teria de ultrapassar 3% para começar a ter efeito desacelerador (é
inútil lembrar, para o leitor brasileiro, que esses valores são
anuais, e não mensais, diferentemente das taxas vigentes em nossas
latitudes).
Mas, se é assim, se o juro é ainda insignificante,
por que se assustam os mercados com a eventualidade de uma elevação
que, conforme tranqüilizou o sr. Alan Greenspan, presidente do Fed, será
pequena e gradual, "en douceur"? Aí é que entra a
especulação. Aproveitando a galinha morta dos juros americanos
e internacionais, os especuladores tomaram emprestadas somas colossais, que
investiram, a curto prazo, em todo tipo de valores em baixa: as ações
de empresas de tecnologia, as commodities, os papéis de países
emergentes como o Brasil.
É lucro na certa, sem arriscar dinheiro próprio.
Ao primeiro sinal de que terão de repagar os empréstimos a juro
mesmo marginalmente mais elevado, os especuladores apressam-se em capitalizar
os ganhos, passando adiante os valores e provocando-lhes a queda. É
isso o que os iniciados chamam de "carry trade" e é em relação
a esse gênero de precaríssimo remédio que se criou o que
Paulo Nogueira Batista Jr. denomina incisivamente da "dependência
e(x)terna" da economia brasileira.
Os contrastes e confrontos não param por aqui, porém. É
a mesma OCDE, a organização dos países ricos, que espera
para este ano crescimento de 8,6% do comércio internacional, taxa que
subiria para 10,2% em 2005. Trata-se de recuperação notável
quando se pensa que, em 2001, o comércio se reduziu em 1% e, desde
então, vinha se reerguendo muito paulatinamente.
Para o Brasil, é notícia excelente. No ano passado, as vendas
brasileiras aumentaram 21%, enquanto o comércio mundial se expandia
a pouco mais de 4,5%. A aceleração do intercâmbio no mundo
deve garantir-nos, para o corrente ano e para o próximo, ao menos a
perspectiva de resultado comparável a 2003.
Uma vez mais, no entanto, o que é bom de um
lado cria perigos do outro. A explicação é simples: em
última análise, o fator responsável pelo dinamismo comercial
é o consumo americano. A própria demanda de importações
por parte da China só consegue se manter porque os chineses exportam
horrores para os EUA, com os quais acumularam, no ano findo, saldo bilateral
de US$ 124 bilhões, muito mais que o total absoluto das exportações
brasileiras para todo o mundo.
Tudo isso é alimentado pelo buraco negro do
déficit comercial americano. Esse atingiu em março a assustadora
soma de US$ 46 bilhões, sinalizando que a rápida expansão
da economia dos EUA continua a ser a grande locomotiva que puxa para a frente
toda a economia mundial, mas lhe agrava os desequilíbrios. Esperava-se
que a queda do dólar de quase 30%, desde o pico de 2001, começasse
a reduzir o déficit. O petróleo a US$ 41 o barril e outros fatores,
entre os quais o crescimento, levaram, ao contrário, ao maior aumento
das importações desde 1993. A fim de impedir que o dólar
afunde em queda livre, os EUA são obrigados a engolir pantagruélicas
quantias de recursos externos, absorvendo e monopolizando boa parte do excedente
da poupança mundial e deixando muito pouco para os carentes crônicos
de capital, como os países latino-americanos.
Fecha-se, assim, o círculo das oposições,
aberto com a citação de Dickens. Vivemos, ao mesmo tempo, no
melhor e no pior dos mundos. O que existe de bom está amarrado num
país que principia a atolar-se nas areias dos desertos do Oriente Médio,
não se sabendo bem até quando os poupadores estarão dispostos
a seguir financiando suas extravagâncias. Para o Brasil, que pouco pode
fazer em relação ao quadro global, resta uma pequena janela
de bom senso: aproveitar, enquanto duram, os ventos favoráveis do comércio,
acumular saldos e reservas que lhe permitam tentar demitir-se da máfia
financeira, se é que essa variante da "onorata società"
aceita um desquite de cavalheiro.
Como viabilizar, na prática, essa mudança
ordenada e sensata de estratégia nacional de desenvolvimento é
o foco central da grande conferência da Unctad que se realizará
em São Paulo em meados de junho. Seu tema principal é justamente
o da busca de coerência entre as estratégias nacionais e os processos
globais, sejam as negociações de comércio, sejam os anêmicos
e intermitentes esforços para tornar menos voláteis os mercados
financeiros.
Se estivéssemos em vias de acabar de vez com o protecionismo comercial
contra os produtos brasileiros ou de assegurar o acesso do Brasil ao financiamento
de que precisa sem sustos nem oscilações violentas, o quadro
seria mais tranqüilo. Como infelizmente a realidade é a oposta
a essa, o melhor para assegurar a coerência com os tempos adversos é
procurar depender cada vez menos de ajuda de fora, pois, como se dizia no
tempo da Colônia, "socorro de España o llega tarde o nunca".
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