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O INSTITUTO JACQUES MARITAIN DO BRASIL
e o Centro IGINO GIORDANI

promoveram a MESA REDONDA no

DIA 04 de Maio de 1998 
Segunda-feira às 18:30
no ILAM - Instituto Latino Americano
Rua Colômbia, 66 - Jardins - fone: (011) 852-7799

com o tema: "IGINO GIORDANI E A
ECONOMIA DE COMUNHÃO"

Componentes da mesa:
MÁRCIO PEIXOTO / MÁRIO FEIO / AROLDO BRAGA

Coordenação dos Debates: Munir Cury

Na reunião será discutido o seguinte texto de Igino Giordani:

A NOVA ORDEM

 A sociedade cristã é uma convergência ordenada, harmoniosa - um retorno - à Unidade, a Deus: requer, então, autoridade, unidade, concórdia, igualdade, liberdade. Estes ideais penetraram ao longo do tempo também na esfera política, através de resistências sustentadas com hipocrisias e compromissos múltiplos também nos séculos cristãos; e até hoje estão longínquos de uma realização completa. A autoridade não é um atributo conferido a uma pessoa para o seu uso e abuso pessoal: mas é um ministério, é ser um servo, o qual, como todos os serviços a favor da sociedade, tornou-se, pelo cristianismo, um serviço sagrado, como uma descendência do Criador, e colocado assim acima do despostismo de um césar-deus. Reciprocamente a obediência a qual tem direito, enquanto autoridade, não é imposição nem hipocrisia, mas sentimento valoroso da consciência do bem social.

A concórdia nasce da consciência do fim comum a todos: a salvação da alma. Tudo aquilo que com isto contrasta deve ser rejeitado. Por isso a autoridade é para os dependentes, não os dependentes para a autoridade. Assim toda forma de sociedade é uma via que facilita e não algo que dificulta e distancia o alcance do objetivo, conjuntamente e pessoalmente; e não deve sobrepor-se ao interesse ultimo de ninguém, nem mesmo do mais mesquinho dos membros. As sociedades têm próprios fins altíssimos e perfeitos, mas em relação ao fim ultimo são somente meios.

A igualdade nasce do fato de sermos todos filhos de um único Pai, Deus, e de termos uma alma imortal. Os filósofos discutiam se o escravo tinha alma. Ele a possuía tanto quanto o patrão; e na ordem do espírito - na Igreja, por exemplo - não existia diferença entre o pobre e o rico, o persa e o grego, o homem e a mulher, sendo dissolvidas todas as distinções do esquema oficial. Tiago, "irmão" de Jesus, admoestava veementemente, na sua carta, os cristãos que, na assemblea, cediam o lugar a um nobre deixando de pé o pobre. Deus não exclui ninguém: é o motivo dominante do Novo Testamento na obra de demolição dos preconceitos, de castas, de setores, no âmbito religioso.

Mas a igualdade, da ordem espiritual, se tornava premente também com relação à ordem temporal; e continua absolutamente a se impor, como uma realização também externa da caridade e da fraternidade.

O fato de depender de Deus, o primado do espírito sobre a matéria, libertou os homens do medo da força física. Cristo emancipou a todos; e a sua verdade continua a libertar quem se encontra subjugado. Alguns cristãos compreenderam este anúncio no sentido material, e começaram a rebelar-se contra os patrões e funcionários: mas a liberdade era algo muito mais profundo. O patrão poderia entregar ao carrasco ou condenar à prisão perpétua ou acorrentar o seu escravo, sem contudo chegar a possuir a sua alma: poderia quebrar os seus ossos, mas não dobrar-lhe o espírito. O escravo era livre, mesmo antes do documento de alforria. O próprio semelhante não mais causava medo: por ele se poderia nutrir respeito, piedade, amor; medo não, porque em Deus todos eram iguais e livres. Quando as castas dominantes e estratos submetidos/dominados tomaram consciência desta verdade, começaram a dissolver-se os sistemas de separação e diferenciação; e aquela consciência se impôs e impõe-se por si só, em direção a uma sempre mais perfeita liberdade do espírito de todo aquele conjunto de correntes, muralhas, objetos e agentes, inventados para oprimi-la, e submeter o espírito a outros seres e não a Deus, a outros fins e não aqueles da sua própria realização em Deus.

Sobre tais ideias de liberdade interior, pululavam nas cabeças de alguns filósofos: mas eram generalizadas na massa, entre todas as categoria sociais, e ancoradas no Eterno.

Não se encontra no Novo Testamento uma doutrina econômica: mas, enquanto a economia diz respeito aos relacionamentos entre os homens ou interfere com a atividade espiritual, colocando-a em segundo plano ou comprimindo-a ou deformando-a, ele ensina preceitos, aos quais o mundo antigo e o mundo moderno - o paganismo, que, mudadas as formas, insiste como sistema de conservação anti-revolucionária - opôs e opõe-se a mais hábil resistência, multiplicando negações, sofismas e transações.

A riqueza por si não é nem boa nem ruim: ou melhor, enquanto faz parte da criação, é, na sua origem boa: e de fato, o proprietário é Deus: o homem é somente o administrador temporário, que a administra de modo a fazê-la concorrer ao único objetivo, ao qual tudo converge: a conquista do Paraíso; o que quer dizer que a administra em obediência ao duplo mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo. A riqueza se torna negativa quando o homem a ela se apega com o próprio coração e faz dela o seu Deus; então se transforma em idolatria, subtrai a alma aos deveres relativos a Deus e aos irmãos; decorrendo dai, a dificuldade do rico, apegado ao seu ouro, de entrar no Reino dos Céus. Também para o pobre é difícil, se se revolta com a sua pobreza, se é um rico falido, não realizado. Quem acumula dinheiro pelo dinheiro, é um idólatra: o avaro é um idólatra. O ouro é um meio e não um fim. Bem aventurado então, quem vende os seus bens e doa a soma arrecadada aos pobres: ele atinge a heroicidade evangélica. E muitos a atingiram, ajudando a remediar as especulações economicas.

Na relatividade da vida humana em relação à eternidade, a riqueza deve servir às necessidades, não ao gasto sem critérios; mais do que isto: aquele algo a mais pertence a quem tem menos. São João Crisóstomo defendia esta verdade até as extremas consequências, dizendo que o algo a mais que alguém possui representa um furto a quem não o tem; e desprovava duramente as gélidas palavras do "meu" e do "teu".

- Dêem o supérfluo aos pobres -

O que é o supérfluo? - Com o pretexto de não poder fixar números, a maior parte dos cristãos se recusam a seguir o preceito evangélico. No entanto, a dialética das diferenças econômicas esta empurrando/forçando os países a tirar parte do supérfluo dos ricos para remediar as necessidades dos pobres, cumprindo obrigatoriamente aquilo que o cristianismo admoesta/pede que se faça voluntariamente, porque voluntariamente feito constituiria um grande mérito, uma espécie de investimento proporcional ao mil por um no banco de um divino banqueiro que nunca falirá. O rico deve lembrar-se que é irmão do pobre: não deve então tolerar diferenças que lesam a unidade e o amor familiar. O ideal, de fato, seria que não existissem diferenças. A Igreja-Mãe de Jerusalém atuou a comunhão de bens, que permitia àqueles que tinham posse de gozar dos benefícios espirituais da assistência aos pobres. De certo modo eram os pobres que davam a esmola aos ricos, permitindo-os de transformar o ouro frio em riqueza de méritos.

Preceito heróico, vender e dar tudo aos pobres. Preceito comum, dar o supérfluo aos pobres.

Texto de Igino Giordani, da obra "Segno di Contradizione", Ed. Morcelliana, Brescia,1944, pag. 18-22.


Página implantada em 18/04/98.
Modificada em 07/05/98.