Volta

Pequeno Histórico sobre Maritain

Instituto
Jacques Maritain
do Brasil

(tirado do livro de Marie e Tony Shannon, publicado em 1985,
por ocasião do centenário de nascimento de Maritain e Raissa, sua esposa)

18/11/1882 – nasce Maritain em Paris, de família protestante; em 1883, nasce Raissa, judia de origem;

"Jacques era um devorador de livros";

conhece Raissa na universidade de Paris; vivem a vida inteira junto com Vera, irmã de Raissa;

ambos, Maritain e Raissa, angustiados com a questão da existência de Deus;

contraem um pacto de se matar, caso dentro de um ano não encontrassem "a verdade" e o sentido certo da vida e do mal;

casam-se em 1904; Raissa nunca teve saúde perfeita;

muito influenciados por Leon Bloy

"só um mal existe: não ser santo"; muito preocupados, ambos, com a relação entre razão e crença; consciência da responsabilidade de ajustar o comportamento diário às normas da fé

em 1906, Jacques, Raissa e Vera são recebidos na Igreja Católica, tendo por padrinho Leon Bloy

Jacques, estudante de biologia, vai estudar em Heidelberg, e se interessa por Aristóteles e São Tomás de Aquino;

O aprofundamento dos estudos sobre Tomás de Aquino foi o segundo marco na vida de Maritain, após a conversão (o primeiro)

Recentemente o Papa, no VIII Congresso Tomista Internacional e com a publicação da sua Encíclica Fides et Ratio, apontou a importância de São Tomás de Aquino para a solução dos problemas contemporâneos envolvendo as verdades deduzidas pela Razão e as verdades reveladas pela Fé;

Durante toda a sua vida, Maritain se preocupou com a convivência entre a ciência e a filosofia e como elas podem atuar juntas, desde que ambas permaneçam fieis a seu método próprio;

A nota de autenticidade do matrimonio de Jacques e Raissa foram a verdade, o bem e o belo, nas suas atividades intelectuais e na sua vida interior;

A guerra de 1914 a 1918 trouxe grandes problemas para o casal, tendo Jacques se alistado e sido recusado por saúde débil; as razoes e as conseqüências da guerra influenciaram bastante a obra de Maritain;

A amizade foi um forte tom da vida de Jacques e Raissa, entre os dois e pelos amigos que atraíram, sempre à luz do que ela poderia ajudar os amigos no caminho para Deus;

No movimento Action Francaise, por volta de 1920, Maritain se dedica ao estudo das relações entre Estado e Igreja;

E em conseqüência o aprofundamento da relação dos leigos com a Igreja, a preocupação com um verdadeiro humanismo, e a analise dos problemas econômicos e questões políticas e sociais, sempre à luz da fé e das relações com a Igreja;

Nasce o seu humanismo, "que tenda a tornar o homem mais fielmente humano, que respeite os direitos da pessoa humana": os contrapontos entre liberdade e autoridade, indivíduo e estado, ciência e religião, fé e razão, graça e natureza;

Ao redor de 1920 Maritain visita os Estados Unidos; preocupa-se com a democracia americana, "enquanto o povo não se conscientizar através da cultura intelectual"; preocupa-se com a educação, com ênfase no conceito de liberdade, direitos e deveres;

prega uma educação liberal, flexível porem fundada na disciplina, para não "afrouxar" a formação do caráter;

é criado um Centro Jacques Maritain na Universidade de Notre Dame, Indiana, nos Estados Unidos;

em 1938, Maritain e Raissa visitam o Brasil; é criado um Centro Jacques Maritain no Rio de Janeiro;

ainda em 1938, encontra-se brevemente com Thomas Merton que, a respeito de Maritain diz: "falei apenas algumas palavras com Maritain, mas a impressão que me ficou do gentil e polido francês já de cabelos grisalhos foi de amabilidade, simplicidade e bondade. Isso dispensava muitas palavras. Despedi-me dele com uma sensação de paz e conforto por existirem pessoas assim no mundo";

em 1935, uma obra de Maritain "Pour le bien commum" refletia suas impressões sobre os ensinamentos de Leao XIII (na Rerum Novarum" e Pio XI (na Quadragesimo Anno);

quando explodiu a Segunda Guerra mundial, o governo francês fez de Maritain seu enviado oficial aos Estados Unidos; ele fundou em Nova York a "Escola Livre de Altos Estudos"; Raissa escreveu então o livro "As Grandes Amizades";

Nos anos 40, De Gaulle convidou Maritain insistentemente para participar do governo, até que ele aceitou ser Embaixador no Vaticano, - posto em que teve muita convivência com o Cardeal Angelo Roncalli (depois Papa João XXIII);

Em Roma participou muito da criação dos ideais do movimento dos padres operários, depois condenado pela Igreja devido a excessos e exageros;

Seu pensamento tem influencia visível nas Encíclicas sociais Mater et Magistra e Populorum Progressio, de seus amigos Papas João XXIII e Paulo VI;

Entre outras partes, no n° 20 da Populorum Progressio é nítida a influencia de Maritain: "se é verdade que o progresso clama sempre por mais técnicos, tanto mais necessária é a contribuição do profundo pensamento e da reflexão de homens sábios na pesquisa de um novo humanismo, que permita ao homem moderno encontrar-se a si mesmo de novo pela descoberta dos valores mais altos do amor e da amizade, da oração e da contemplação. São essas coisas que favorecerão a plenitude de autentico progresso. Um progresso que seja para cada um e para todos a transição de condições menos humanas para condições mais humanas";

Após os anos de embaixada no Vaticano, Maritain vai para os Estados Unidos e fica 7 anos em Princeton, ensinando filosofia;

Em 1956 morre Vera, após dolorosa doença; em 1960 morre Raissa;

Podemos imaginar o sofrimento de Maritain sem a esposa, - ele que tinha sublimado a tal ponto sua relação conjugal que chegaram a fazer um voto de continência integral poucos anos após o casamento – um voto de celibato do casal: gesto de difícil compreensão num mundo de hoje, que vive "segundo a carne";

Após a morte de Raissa, Jacques se internou num convento dos "Irmãozinhos de Jesus" em Toulouse, onde ensinava filosofia, levando uma vida de "estudo, trabalho e oração"; nesse tempo escreveu a obra "Deus e a permissão do mal", uma de suas maiores contribuições para melhor compreensão da filosofia tomista;

Preparou e publicou as anotações de Raissa, sob o titulo "Diário de Raissa";

Foi chamado a Roma no Concilio Vaticano II, onde juntamente com o Patriarca Atenágoras, trabalhou no sentido da reconciliação da Igreja Oriental com o Vaticano;

O Papa Paulo VI, que o chamou de "meu mestre", lhe fez homenagem especial no encerramento do Concilio, "ao grande filosofo cristão Jacques Maritain";

Preocupava Maritain, especialmente, nos textos do Concilio, a relação entre o cristianismo e o espirito na realidade temporal presente: sua intenção foi "separar o trigo do joio" no pensamento moderno;

Outra preocupação foi o papel do leigo: "o leigo deve Ter os olhos e os ouvidos, a voz, as pernas e os braços de Jesus Cristo", atuando sob responsabilidade própria na Igreja;

Em 1969 Maritain foi aceito na congregação dos "Irmãozinhos de Jesus";

Veio a falecer em 28 de Abril de 1973;

Quero ressaltar, na vida de Maritain:

(1) a vida "dos" Maritain, ou seja, sua enorme identidade com Raissa, fundamente num verdadeiro e profundo amor;
(2) em conjunto, fazendo de seus talentos uma permanente oferenda a Deus; e
(3) em permanente dedicação às "grandes amizades", tentando ajudar os amigos a também chegarem a Deus;
(4) uma vida particular que dava tantos exemplos para a vida publica através do amor e da doação aos amigos, à Igreja e, no fim das contas, cumprindo o mandamento de glorificar a Deus neste mundo;

A vida de Jacques e Raissa Maritain foi um "livro aberto", exemplo em que podemos nos mirar para melhor viver as nossas vidas, nesses tempos em que poucos poderão "abrir seu livro" à vista de todos!

São Paulo, 20 de Abril de 2001

Alceu Amoroso Lima Filho
Instituto Jacques Maritain - Presidente

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